Créditos ao blog: http://andreagraagra.blogspot.com/2010/05/uma-conversa-com-as-mulheres-catolicas.html
A masturbação feminina e as "mulheres católicas"
Falaremos em breves palavras sobre um tema ainda polêmico: a “masturbação feminina”. O faremos segundo pesquisas bibliográficas e entrevistas realizadas em cinco cidades nordestinas, com um total de 100 mulheres, incluindo-se as católicas carismáticas.
Primeiramente é bom que se diga: em quase todos os tempos de nossa história ocidental, a cultura criou um ambiente de intensa e doentia vigilância sobre a mulher. Um olhar destemido que se estenderia também ao seu “prazer solitário”, ou seja, a masturbação.
Não esqueçamos que a medicina e a igreja, aliadas aos “bons” costumes burgueses, fizeram por muito tempo uma marcação cerrada e impiedosa para se evitar o que consideravam um "vício abominável", o "supra sumo dos vícios".
Até textos bíblicos foram usados para solidificar essas posturas e “cuidados”. Um exemplo típico é a Carta aos Coríntios de Paulo: «os fracos (isto é, aqueles que ejaculam voluntariamente, sejam rapazes ou moças, sejam casados ou não casados) não possuirão o reino dos céus» (1Cor 6-10) (Jean Delumeau).
Tudo isso para embasar um pensamento moral no qual o gozo feminino não seria tolerado sem a presença masculina.
Nesse sentido, a hostilidade dos médicos do século XIX se voltaram para o clitóris – «simples instrumento de prazer e desnecessário à procriação». E médicos, padres e pais fariam uma verdadeira cruzada contra a masturbação (também conhecida como onanismo).
O exagero era tanto que alguns médicos viriam até na prática da equitação e no uso da máquina de costura (essa última denunciada pela Academia de Medicina em 1866), uma possibilidade da mulher encontrar o prazer no movimento das pernas (Corbin).
Próprio Philippe Pinel, médico francês considerado por muitos o pai da psiquiatria, defendia que as mulheres ficariam loucas irrecuperáveis mediante o exercício inapropriado da sexualidade, devassidão, propensão à masturbação e homossexualidade.
Por isso, até o início do século XX, acredita-ve que a masturbação seria causadora de doenças mentais (a histeria é um exemplo). Uma tese defendida por vários médicos, a despeito das descobertas de Freud (Mary del Priore).
Na realidade, a partir de Freud e da psicanálise começa-se a se justificar e amenizar a culpabilização dos desejos e das fantasias que provocaram por tanto tempo aflição nas mulheres e que eram estímulos à masturbação. O desejo, dito na linguagem clerical como demoníaco, passaria a ser tratado como um algo natural.
E no século XX, toda uma cultura começaria a ser arquitetada em cima dos conceitos de sexologia e orgasmoterapia. E ao contrário do passado, a masturbação feminina passa a ser prescrita científica e naturalmente como parte de um sistema de melhoria de vida das mulheres, ou seja, com fins terapêuticos. E sem mais nenhuma conotação de indecência ou de incentivo a perversão (Vicent).
A sexologia na realidade fez funcionar um sistema em que se defenderia abertamente a erotização e a legitimidade do prazer. Duas variáveis da sexualidade humana fundamentais, mas em contraposição flagrante à moral sexual pregada pela doutrina católica.
Notem que ainda hoje, para o Catecismo vigente da Igreja Católica, "o prazer sexual é considerado moralmente desordenado, quando é buscado por si mesmo, isolado das finalidades de procriação e união" (Catecismo).
Considerando que a definição do termo masturbação oferecido pelo documento vaticanício o situaria no contexto da «excitação voluntária dos órgãos genitais» com o fim exclusivo de conseguir um prazer venéreo, «o ato seria intrínseca e gravemente desordenado». Sem meias palavras, persistiria a condenação religiosa para esse tipo de prazer na contramão de toda uma ciência e dos costumes.
E isso de certa forma apareceu nas entrevistas, realizada em 2008, com mulheres de João Pessoa (PB), C. Grande (PB), Natal (RN), Recife (PE) e Salvador (BA).
Interessante observar que não tivemos dificuldades em abordar o tema nas entrevistas. Poderíamos até imaginar com isso um traço de abertura das mulheres (de quebra de tabu).
Mas falemos dos resultados:
Pois bem. Sobre as respostas e comentários a respeito do tema masturbação, podemos afirmar que esse foi um divisor de águas bem nítido entre as mulheres mais afastadas do catolicismo e as mulheres carismáticas.
Ora, por mais que se fale em avanço da sexologia e da busca do prazer, a pesquisa demonstrou que muitas mulheres ainda associam a masturbação a algo errado ou desnecessário; um tabu ou até um pecado.
Em suma, reina ainda esse tabu cultural, pelo menos nos grupos de mulheres mais próximas do catolicismo. E entre as carismáticas, 89,29 % das entrevistadas consideram a masturbação um ato que visa exageradamente a sexualidade, por isso, um perigoso estímulo ao prazer sensual, que termina por se distanciar do "projeto de Deus".
Bem diferente é a percepção das mulheres mais afastadas do catolicismo. Para elas (mais de 82% das entrevistadas), o tema é visto dentro de uma perspectiva de naturalidade e de autoconhecimento (do corpo sexuado).
Essas mulheres pensam a masturbação como um ato comum inerente à natureza feminina e uma prática necessária ao desenvolvimento da sexualidade e autoconhecimento para as mulheres em geral.
Todavia, elas próprias às vezes apresentam sinais de culpa e desconforto em lidar ou assumir a prática; muitas inclusive, não obstante acharem normal, dizem não praticar isoladamente.
No fundo, os resultados mostraram que a masturbação é ainda um tabu cultural para muitas mulheres, especialmente, às ligadas aos movimentos carismáticos.
Jean Delumeau, O pecado e o medo: a culpabilização no Ocidente. Vincent, Gérard. História da vida privada. Alain Corbin; História da vida privada: a relação íntima ou os prazeres de troca. André Agra. Moral sexual: a mulher pós-moderna no Confessionário. Catecismo da Igreja Católica; Georges Vigarello, História do Corpo
Postado por ANDRÉ AGRA G. LIRA às 15:52










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